***[- Vamos lá para dentro! - Puxou-me a Nicole.
- Já vou. - Tentava empata-la, mas em vão. Passado um bocado eu estava lá dentro. As luzes não paravam de piscar, a música estava mesmo alta e havia uma multidão de gente.
- Vamos buscar uma bebida e conhecer rapazes giros! - Ela puxou-me outra vez, mas desta vez para o balcão. Pediu qualquer coisa para ela e pelos vistos também para mim.
A noite continuava e, as tantas, a Nicole estava a dançar e a rir com um rapaz, enquanto eu estava encostada ao balcão a beber aquilo que ela tinha-me pedido.
- Whisky com gelo, por favor. - Pediu um rapaz que se tinha aproximado.
Pegou no copo e também encostou-se ao balcão ao meu lado. Reparei que ele estava a olhar para o mesmo par que eu. Disfarcei que não lhe estava a prestar atenção e continuei fixada na minha amiga e o rapaz. O rapaz com quem ela dançava era alto, roupa um pouco larga e um cabelo castanho.
- Estas a ver aquele ali de roupa larga a dançar com a rapariga de vermelho? – Perguntou o rapaz ao meu lado, só passados alguns momentos, é que percebi que ele se dirigia a mim.
- Sim. A de vermelho é minha amiga. - Não tinha coragem suficiente para olhar directamente para o rapaz.
- O gajo, é meu irmão. E já exagerou um bocado. – Disse ele num tom de cansaço.
- Pois a minha amiga também.
- Sou o Dave. - Ele esticou o braço com a mão aberta e eu apertei-lhe a mão respondendo.
- Payson. - Olhei para ele.
Este, era um rapaz alto, moreno, com cabelo preto curto. Tinha uma cara bastante proporcional para um rapaz e não passava dos 20 anos de idade.
- Prazer. - Sorriu ele.
Só aí percebi que ainda tinha a minha mão agarrada a dele. Rapidamente soltei-o e meti as mãos nos bolsos.
- Sim. É um prazer. - Voltei a olhar para a Nicole, ela já estava aos beijos com o irmão do Dave. Revirei os olhos. - Mas que típico... - Disse eu e voltei-me de costas para o par amoroso.
- Então, porque é que não estás aí com a tua amiga? Em vez disso, estás aqui ao balcão.
- Saídas, não são a minha cena. - Ri-me, sem ter de encara-lo. - Sim... O meu irmão é que costuma levar-me a estes sítios. Ele adora engatar miúdas. - Acenei em forma de compreensão.
- Olha, eu e o Luke vamos andando. - Quase gritou Nicole ao meu ouvido. - Podes ligar ao meu irmão para ele te vir buscar.
- O meu irmão não está muito lúcido para conduzir. Eu levo-vos. A todos. - Disse o Dave e olhou para mim.
- Meu, eu estou bem. - Ria-se o Luke.
- Não vou discutir isso contigo. - Riu-se o Dave do seu irmão, agarrou-me pelo braço e puxou para fora daquela confusão.
Na rua estava bastante frio e eu arrepiei-me. Vi a Nicole com o Luke ao pé do carro cinzento, estavam bastante entretidos um com outro.
- Toma. - Ele esticou o seu casaco, eu não o aceitei, apenas fiquei parada a olhar para ele. Ele aproximou-se de mim e colocou o casaco a minha volta. - Melhor?
- Eu não vou contigo. - Afirmei eu.
- Porque não? - Perguntou ele admirado.
- Primeiro, porque não te conheço de lado nenhum. Segundo, estiveste a beber. - Lembrei-me de tê-lo visto a pedir um whisky.
- Na verdade, não bebi nem uma gota. Só pedi para não ser mal visto. E não te preocupes, eu não te vou fazer mal nenhum. - Sorriu ele para mim. Eu continuei parada.
- Eu sei como são rapazes... Dizem que não, mas depois... - Não acabei, mas ele percebeu a ideia. - Eu vou ligar ao Jack.
- Não será necessário. E eu não acredito que penses isso de mim. - Disse ele sorrindo para mim.
Eu não respondi, apenas olhei para ele sem qualquer expressão. Ele dirigiu-se para o estacionamento e vi um Audi a piscar. O Luke e a Nicole entraram lá para dentro, para os bancos traseiros.
- Esse carro é demais! - Observei eu quando estava mesmo ao lado deste. - Adoro-o... - Passei a mão por cima do capote. Seria precisam pelo menos duas vidas para eu conseguir comprar um carro daqueles.
- Sim, é um carro bastante bom. - Respondeu-me ele.
Bastante bom? é um carro desportivo! Entramos no carro e eu coloquei o cinto de segurança. - Eu acho que será melhor levar estes dois para a casa. Ou pelo menos a tua amiga. - Disse-me ele olhando para o espelho, para ver melhor aqueles dois. Quando me virei, vi que eles tinham adormecido um em cima do outro.
- Sim. Vamos levar a Nicole. Eu fico com ela.
- Bem, então diz lá qual é a morada.
Durante o caminho havia um silêncio embaraçoso e o Dave tentou encontrar alguma música na rádio, mas depois desistiu e deixou ficar um canal qualquer, mas num som muito baixo.
- Disseste que não costumas sair, mas estás vestida para uma saída. - Observou ele.
- Isso? Maior parte é da Nicole, não costumo andar com coisinhas dessas normalmente.
- Mas devias. Fica-te bem. - Voltou ele a sorrir e eu não pude evitar de me sentir estranhamente agradável com ele.
- Obrigada.
Ele olhou para mim e voltou a sorrir. Depois eu percebi.
- Deves ter feito muitas vezes isso. - Disse eu muito baixo enquanto olhava para a janela do carro.
- Isso o quê? - Perguntou ele surpreendido.
- Sabes que és bonito, sabes que uma rapariga simples não te resiste, vais à uma discoteca, arranjas uma miúda, depois fazes senti-la bem e ela cai-te rendida aos pés. - Disse eu calmamente.
- Mas tu não és uma rapariga simples. - Disse ele.
- Isso tu também deves dizer a muitas. - Respirei fundo. Estava um pouco zangada por ter sentido uma certa simpatia pelo rapaz.
- Porque é que pensas isso sobre mim? - Ele parecia mesmo admirado.
-Bem...como já te disse: tu és bonito, e sabes usar aquilo que tens. Já chegamos. Obrigada pela boleia. – Disfarcei logo eu, comecei a achar que a conversa estava demasiado embaraçosa.
- Espera. Eu ajudo-te a levar a tua amiga. - Ele saiu do carro.
- Não é preciso. Vou chamar o Jack. - Ele olhou para mim e eu não pude não olhar para ele da mesma maneira.
- Mas tu namoras com este rapaz para estares sempre a mencionar o nome dele?
Não respondi. Sacudi um pouco a Nicole para ver se ela acordava, foi difícil mas lá estava ela a sair do carro e bater com força na porta de casa.
- Obrigada pela boleia. - Agradeci eu e vi que a Nicole já não estava e a porta da entrada estava aberta.
- De nada. - Ele entrou no carro. - Vemo-nos por aí.
Dirigi-me a porta e depois de ter entrado fechei-a bem. Fui até a cozinha e encostei-me a bancada. Reparei que tinha ainda o casaco do Dave. Comecei a remexer nos bolsos e lá encontrei um papel pequeno. Desdobrei-o e vi que era um número, revirei os olhos e voltei a colocar o papel no bolso.
- A Nicole já está a dormir. - Disse o Jack que tinha entrado na cozinha. Ele já estava vestido de pijama: uma t-shirt verde escura e umas calças um pouco largas.
- Obrigada por fazeres isso. - Sorri para ele ao que ele retribuiu. - Então uns amigos vieram cá trazer-vos?
- Sim. Pode dizer-se que sim. - Respondi tirando o casaco. - Bem, eu estou cansada. Vou dormir. Boa noite. - Passei por ele e coloquei a minha mão no seu ombro.
- Sim. Boa noite, Payson.
Tomei rapidamente um duche, vesti o pijama e deitei-me. Ouvia a pesada respiração da minha melhor amiga, mas não era isso que me não deixava dormir. Mas sim, o rapaz que eu acabara de conhecer. Ele fazia lembrar alguém, mas não sabia bem quem. Depois de várias voltas na cama, por fim o sono apoderou-se de mim.
" - Hey! Estava a tua procura. - Disse o rapaz de cabelo preto para mim.
- Desculpa, perdi-me na livraria a estudar a literatura. Só consegui chegar agora. - Disse eu.
- Tu não devias estar aqui. Se nos descobrem, estamos feitos.
Estávamos no que parecia um sótão. Estava escuro, única coisa que iluminava aquela divisão escura era uma pequena vela.
- Eu tinha que te ver. - Sorriu ele, depois beijou-me docemente, como se não houvesse amanhã.
- Acho isso tão injusto. - Disse eu mal os nossos lábios se separaram.
- Eu sei. Se fosse num outro tempo, poderíamos estar juntos. Aqui e agora somos dos estatutos diferentes e a nossa união seria...impensável. - Ele apanhou-me uma madeixa do cabelo e colocou atrás da orelha.
- Achas que vai haver outro tempo para nós os dois? - Perguntei eu ao que ele sorriu e respondeu:
- Nunca duvides disso. - Beijou-me outra vez."]***